Projetos sustentáveis: como conectar letramento científico, território e ODS

Via: Nova Escola 

Um relato prático de como transformar desafios do território em projetos investigativos conectados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

 

Conectar os projetos a questões reais do território dos alunos pode dar mais sentido e engajamento às ações. Foto: Getty Images

Vivemos em um movimento socioambiental de constante mudança. Neste nosso universo de oito milhões de pessoas, entender os limites e zelar pelo futuro dos recursos naturais torna-se cada vez mais necessário. Porém, quando falamos de sustentabilidade, quase sempre somos levados apenas a percepções ambientais, ainda que ela também envolva dimensões sociais e econômicas.

 

A própria BNCC propõe que os estudantes desenvolvam um novo olhar sobre o mundo, façam escolhas conscientes e intervenham pautados no bem comum.

Do global ao território: onde isso toca a nossa escola?

Muitas vezes, o debate aparece em escala global, distante da realidade concreta da turma. Por isso, antes de pensar em grandes agendas, tenho aprendido que é preciso territorializar. Perguntar: como esse impacto chega ao meu município? Onde ele aparece na escola, na comunidade, na vida das famílias?

 

Essa intencionalidade pedagógica é também o ponto de partida para que metodologias como STEAM ou a aprendizagem baseada em projetos façam sentido.

Ciência na veia: quando o território vira ponto de partida

Foi com essa perspectiva que desenvolvi o projeto Ciência na veia: Minha terra, meu povo, meus IDS, com 180 alunos. A proposta era promover o letramento científico por meio de investigações inspiradas em desafios socioambientais do território, articulando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e os Indicadores de Desenvolvimento Sustentável (IDS) do município de Mogeiro.

 

O início do percurso investigativo

O caminho começou com a apresentação dos ODS e a exibição do filme O Menino que Descobriu o Vento, que conta a história de William Kamkwamba, no Malawi.

 

A partir dali, organizamos três oficinas. As equipes, formadas por cinco estudantes, tiveram uma semana para identificar um problema da escola ou da comunidade e produzir um vídeo-pitch, uma apresentação curta e objetiva para apresentar a ideia.

 

Depois das apresentações, cada grupo realizou uma metanálise com apoio do ChatGPT, buscando artigos científicos sobre a temática escolhida. A comparação de dados de diferentes contextos ajudou a ampliar a compreensão das mudanças globais e seus efeitos locais, além de aprofundar o contato com metodologias de pesquisa.

Ouvindo a comunidade e analisando dados

Na etapa seguinte, os estudantes elaboraram questionários semiestruturados e entrevistaram agentes da comunidade. O desenho da pesquisa foi orientado por uma guia baseada no modelo do Duplo Diamante do Design Thinking, que auxiliou na formulação das perguntas, na escolha da metodologia e na organização dos produtos finais.

 

A segunda oficina foi desenvolvida em parceria com o componente de Matemática. Os alunos organizaram informações em planilhas no Excel, calcularam porcentagens e construíram gráficos. Também utilizaram a ferramenta 5W2H para elaborar um mapa de persona, buscando compreender melhor o público envolvido.

Comparando dados locais e propondo novos indicadores

Na terceira oficina, compararam os dados coletados com os indicadores da nossa cidade, Mogeiro, utilizando a plataforma ODS-PB. Ao identificarem lacunas nos indicadores existentes, simularam um encontro da ONU e propuseram novos parâmetros para monitorar o desenvolvimento socioambiental do município.

 

A fase de ideação e construção dos protótipos aconteceu ao longo de três meses no laboratório de inovação e sustentabilidade educacional da escola, com encontros quinzenais de acompanhamento.

Projetos que nasceram da realidade dos estudantes

Ao todo, colegas, foram desenvolvidos 20 projetos, que dialogam com diferentes ODS e habilidades previstas na BNCC, especialmente em Ciências, além de fortalecer aprendizagens em Probabilidade e Estatística.

Watersol: energia solar para reduzir custos no campo

O projeto Watersol consiste em uma bomba d’água movida a energia solar, programável e autônoma, que dispensa o uso de cabos elétricos e reduz custos para pequenos agricultores.

 

A ideia surgiu da vivência de dois alunos, de 14 anos, cujos familiares trabalham na manutenção de bombas agrícolas e dependem delas para irrigação das plantações.

 

Após análise dos questionários levados à comunidade, os alunos descobriram que recorrentes quedas de energia e rompimentos de cabos por animais eram os principais fatores que levavam ao comprometimento do aparelho.

 

Com o uso da energia solar, a necessidade de cabos é eliminada, já que a bateria do sistema é diretamente alimentada pela luz do sol, reduzindo custos e riscos com equipamentos.

Raízes do Campo: alternativa para a seca

O projeto Raízes do Campo nasceu da observação dos problemas enfrentados com a nutrição do gado durante o período de seca. O estudante desenvolveu um modelo de ração sustentável à base de palma e caroço de algodão para alimentar o gado nesses períodos.

 

“É muito caro manter o gado nesse tempo. Com o gado magro, a gente vende muito barato. Uma ração barata pode ajudar”, explicou o aluno durante as aulas.

Austin Voice: comunicação e inclusão

O Austin Voice é um painel de comunicação que utiliza imagens para facilitar a compreensão das necessidades de crianças não verbais com TEA, buscando apoiar o convívio familiar e escolar.

 

A aluna que criou o programa tem primos autistas e observa a dificuldade da família na comunicação. Ela entrevistou mães atípicas atendidas na sala de recursos da escola, além de conversar com a equipe multidisciplinar e psicopedagogos.

 

O sistema foi doado à escola, junto de outros seis projetos, que passaram a compor o acervo para atendimentos.

Resultados que vão além da sala de aula

Parte das soluções foi doada à escola e à comunidade. Alguns trabalhos foram premiados no Concurso Talento Científico Jovem, promovido pela UFPB, e apresentados no CONEDU, em parceria com o Instituto Alpargatas.

 

Mais do que prêmios, o que ficou evidente foi a capacidade dos estudantes de observar o território, analisar dados, ouvir a comunidade e propor soluções viáveis. Trabalhar sustentabilidade vai além de discutir reciclagem. É um exercício de formar sujeitos críticos, atentos ao entorno e comprometidos com o bem-estar coletivo.

 

Antes de olhar para o mundo inteiro, vale perguntar: o que o meu território está dizendo? Talvez as respostas estejam mais próximas do que imaginamos.

 

Linaldo Oliveira é mestre em Ecologia e Conservação e professor da EMEF Iraci Rodrigues de Farias Melo, em Mogeiro (PB). Foi tricampeão do Prêmio Educador Nota 10 do Instituto Alpargatas e vencedor, como Educador do Ano, da 24° edição do Prêmio Educador Nota 10 da Fundação Lemann.